arquiteto Mario Savioli
mestre em arquitetura e urbanismo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Quem segue pela Estrada Velha de Itu, ligação entre
Itapevi e São Paulo, no horário de pico do trânsito, fica preso em um enorme congestionamento.
A via é paralela à ferrovia, que hoje faz parte da CPTM -
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
Tomado isso como paradigma, será que o transporte
sobre trilhos na Rodovia Raposo Tavares resolveria o problema do trânsito que
assola essa via e consequentemente Cotia e os municípios que dependem deste
trecho da rodovia?
Os municípios percorridos pela ferrovia Sorocabana, construída
em 1875, cresceram e se adaptaram em torno desse sistema.
“Ao estabelecer estações, a ferrovia produziu
em torno destas, espaços urbanos que congregavam a população nunca além da
distância possível de uma caminhada e para onde confluíram as inúmeras estradas
municipais que a abasteciam”.[i]
Depois do
Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek, as ferrovias foram abandonadas.
Mesmo com os investimentos da CPTM na ferrovia, o transporte rodoviário continuou
a ser também tônica da região.
Cotia cresceu sobre a lógica da mobilidade do
transporte rodoviário. Basta ver a formação urbana do município. Os loteamentos
foram se formando mais próximos da rodovia a partir da década de 50, enquanto
foram estabelecidas chácaras em locais mais distantes. O transporte público não
havia ainda saído do eixo da Rodovia Raposo Tavares e o acesso a essas chácaras
era feito apenas por automóveis. Na década de 70, com a urbanização iniciada na
metade da década de 60, o transporte público se estendeu a essas áreas. A
transformação foi imediata. As chácaras começaram a ser loteadas. A flexibilidade
da lógica rodoviária foi estabelecida pela sua capacidade de adaptação a um
sistema viário traçado pelo acaso de acontecimentos locais e construído sobre
estradas de terra, antes picadas de acesso.
A rodovia sempre fez parte da malha do traçado
viário local. Não havia ainda volume de trânsito até o final dos anos 90 que
alertasse essa distorção. Opções de vias internas paralelas nunca foram
entendidas como importantes. E seriam uma solução.
Hoje deparamos com uma rodovia travada. O espaço em
função do tempo foi alterado para o tempo em função do espaço.
O monotrilho poderia ser uma solução. O peso do
tráfego intraurbano seria menor e liberaria a rodovia para a circulação de
veículos de outras regiões. Mas uma interferência como esta estabeleceria uma
heterotopia. Mais que no plano do chão, uma barreira vertical a isolar dois
lados. Um “minhocão”, uma Avenida Cruzeiro do Sul são os piores exemplos desse
tipo de interferência urbana. Além disso, todos os viadutos, inclusive os do
rodoanel, precisariam ser demolidos e reconstruídos.
O sistema sobre trilhos é rígido. Necessita de
transporte auxiliar para que seja abastecido. Do investimento no transporte nos
eixos secundários. Da compensação financeira para que eixos de menor público
sejam atendidos com a mesma eficiência dos eixos de maior movimento. A lógica
rodoviária estabelecida por décadas precisa ser alterada diante de outro
modelo. O destino final estabelecido no ponto inicial deve ser mudado pelo
destino intermediário da lógica ferroviária.
O corredor de ônibus é uma solução menos agressiva.
A Avenida Rebouças é uma prova disso. Estruturada e organizada para tal,
resolve com competência o problema do transporte com um investimento menor. Locado
na pista da esquerda da rodovia, bastaria a construção de passarelas (a maioria
já existente) e de pontos de ônibus nas ilhas. No mais, seria necessária apenas
mais uma pista à direita da rodovia (onde a maior parte do espaço destinado
para tal já existe), preservando-se quase toda a infraestrutura já existente.
Mas a qualquer
alternativa é preciso antes um investimento na mudança de mentalidade. A
cultura do automóvel é a realidade gerada pela própria estruturação urbana do Município
de Cotia. Apenas uma proposta que atue conjuntamente no padrão do comportamento
da população com o projeto técnico terá êxito.
[i] SAVIOLI,
Mario Luiz. A Cidade e a Estrada-Transformações Urbanas do Município de
Cotia ao Longo da Rodovia Raposo Tavares. Tese (Mestrado)- Universidade
Presbiteriana Mackenzie, 2006. 208 p.