20/08/2014

MOBILIDADE URBANA-QUAL A MELHOR SOLUÇÃO PARA A RODOVIA RAPOSO TAVARES




arquiteto Mario Savioli

 mestre em arquitetura e urbanismo

Universidade Presbiteriana Mackenzie


 

 

Quem segue pela Estrada Velha de Itu, ligação entre Itapevi e São Paulo, no horário de pico do trânsito, fica preso em um enorme congestionamento. A via é paralela à ferrovia, que hoje faz parte da CPTM - Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.

Tomado isso como paradigma, será que o transporte sobre trilhos na Rodovia Raposo Tavares resolveria o problema do trânsito que assola essa via e consequentemente Cotia e os municípios que dependem deste trecho da rodovia?

Os municípios percorridos pela ferrovia Sorocabana, construída em 1875, cresceram e se adaptaram em torno desse sistema.

 Ao estabelecer estações, a ferrovia produziu em torno destas, espaços urbanos que congregavam a população nunca além da distância possível de uma caminhada e para onde confluíram as inúmeras estradas municipais que a abasteciam”.[i]

Depois do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek, as ferrovias foram abandonadas. Mesmo com os investimentos da CPTM na ferrovia, o transporte rodoviário continuou a ser também tônica da região.

Cotia cresceu sobre a lógica da mobilidade do transporte rodoviário. Basta ver a formação urbana do município. Os loteamentos foram se formando mais próximos da rodovia a partir da década de 50, enquanto foram estabelecidas chácaras em locais mais distantes. O transporte público não havia ainda saído do eixo da Rodovia Raposo Tavares e o acesso a essas chácaras era feito apenas por automóveis. Na década de 70, com a urbanização iniciada na metade da década de 60, o transporte público se estendeu a essas áreas. A transformação foi imediata. As chácaras começaram a ser loteadas. A flexibilidade da lógica rodoviária foi estabelecida pela sua capacidade de adaptação a um sistema viário traçado pelo acaso de acontecimentos locais e construído sobre estradas de terra, antes picadas de acesso.

A rodovia sempre fez parte da malha do traçado viário local. Não havia ainda volume de trânsito até o final dos anos 90 que alertasse essa distorção. Opções de vias internas paralelas nunca foram entendidas como importantes. E seriam uma solução.

Hoje deparamos com uma rodovia travada. O espaço em função do tempo foi alterado para o tempo em função do espaço.

O monotrilho poderia ser uma solução. O peso do tráfego intraurbano seria menor e liberaria a rodovia para a circulação de veículos de outras regiões. Mas uma interferência como esta estabeleceria uma heterotopia. Mais que no plano do chão, uma barreira vertical a isolar dois lados. Um “minhocão”, uma Avenida Cruzeiro do Sul são os piores exemplos desse tipo de interferência urbana. Além disso, todos os viadutos, inclusive os do rodoanel, precisariam ser demolidos e reconstruídos.

O sistema sobre trilhos é rígido. Necessita de transporte auxiliar para que seja abastecido. Do investimento no transporte nos eixos secundários. Da compensação financeira para que eixos de menor público sejam atendidos com a mesma eficiência dos eixos de maior movimento. A lógica rodoviária estabelecida por décadas precisa ser alterada diante de outro modelo. O destino final estabelecido no ponto inicial deve ser mudado pelo destino intermediário da lógica ferroviária.

O corredor de ônibus é uma solução menos agressiva. A Avenida Rebouças é uma prova disso. Estruturada e organizada para tal, resolve com competência o problema do transporte com um investimento menor. Locado na pista da esquerda da rodovia, bastaria a construção de passarelas (a maioria já existente) e de pontos de ônibus nas ilhas. No mais, seria necessária apenas mais uma pista à direita da rodovia (onde a maior parte do espaço destinado para tal já existe), preservando-se quase toda a infraestrutura já existente.

Mas a qualquer alternativa é preciso antes um investimento na mudança de mentalidade. A cultura do automóvel é a realidade gerada pela própria estruturação urbana do Município de Cotia. Apenas uma proposta que atue conjuntamente no padrão do comportamento da população com o projeto técnico terá êxito.



[i] SAVIOLI, Mario Luiz. A Cidade e a Estrada-Transformações Urbanas do Município de Cotia ao Longo da Rodovia Raposo Tavares. Tese (Mestrado)- Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006. 208 p.