Publicado na revista"Circuito 165 de13/08/2013
Uma análise sobre a enorme transformação urbana por que passa a região de Cotia deve ser feita através das relações socioeconômicas e espaciais do desenvolvimento urbano, do enquadramento do Município ao planejamento da Região Metropolitana, da linearidade que a Rodovia Raposo Tavares impõe à composição urbana e das características que os condomínios de classe média e alta conferiram ao território. Cotia se dividiu, passando a contar duas histórias que não deveriam estar se tornando paralelas, o que agravou o processo discriminatório entres os grupos de rendas diferentes que coabitam o mesmo Município. O meio ambiente sempre relegado a um plano secundário passou a ser o empecilho e não o coadjuvante dessas transformações.
A partir dos anos 70, a urbanização do Município de Cotia no trecho de domínio da Rodovia Raposo Tavares se fez de maneira mais intensa, motivada pela expansão da Capital a oeste. Os investimentos estatais na rodovia fizeram com que os municípios mais isolados, como Cotia, fossem assimilados por essa expansão.
A urbanização de Cotia não se fez antes da metade dos anos 60, quando a sua população urbana ultrapassou a população rural, mas a mentalidade urbana aconteceu somente no final dos anos 60 e início dos anos 70. A população de baixa renda se instalou no vale do Rio Cotia, entre a reserva ambiental do Morro Grande e a colina histórica que originou a cidade. Ao longo da Rodovia e à jusante do Rio Cotia ficaram as classes média e alta.
Duas cidades não convergentes se formaram, distanciando-se cada vez mais, apesar de inseridas num mesmo território. Qualquer separação territorial pretendida seria impossível na medida em que as arrecadações provindas de impostos de origem industrial ficariam apenas em um dos lados. Essas ocupações geraram desigualdades no Município, onde as classes de maior renda e por isso mesmo, mais próximas do poder, trouxeram a infraestrutura urbana perto de si, utilizando-se dos impostos, capital comum a todos os munícipes.
São do final dos anos 70 os condomínios que tanto caracterizam a região. Nessa mesma década, o Município foi submetido ao zoneamento industrial estadual, à leis estaduais de proteção do meio ambiente, ao sistema de transportes metropolitano e passou a se compor em rede com o planejamento metropolitano. Mesmo assim o planejamento local só aconteceu em 1991. Até então, o tecido urbano, naquilo que não dependia do planejamento metropolitano, ficou à mercê das ideologias dos administradores eleitos, do clientelismo político, da avidez dos investidores e da própria população.
A mudança de uso das áreas lindeiras a rodovia foram notáveis. A estrada, já comprometida com a ocupação industrial, passou a se associar aos condomínios de classes média e rica, que por sua vez determinaram que essas indústrias fossem voltadas à produção de alta tecnologia, isenta de resíduos poluidores, o que compensava a sua proximidade às áreas de produção, sem comprometer o distanciamento de ambas da rodovia.
A natureza foi transformada em argumento de venda de espaço e a rodovia se tornou uma vitrine, conforme os interesses comerciais do momento.
Para se evitar as legislações estaduais, no final da década de 90, grupos de casas, as chamadas vilas, previstos na legislação municipal, começaram a ser disseminados. Os loteamentos populares foram inviabilizados pelos altos custos da infraestrutura determinada pela legislação federal 6766. A venda de unidades edificadas se tornou a opção já que podiam absorver os custos dessa infraestrutura.
Os grandes lotes nos interstícios dos loteamentos passaram então, a viabilizar comercialmente a migração da classe média para esta região na forma de pequenas vilas. Da mesma forma esta acontecendo na ocupação do vale do rio Cotia, à sua jusante.
Se antes essa natureza atraia quem deixava a Capital, hoje passou a ser um argumento falso de venda. De argumento a empecilho. Os 20% de área de natureza a ser preservada, junto com os recuos ao longo dos fios d’água determinados pela legislação estadual são o que ainda restam ou podem restar de natureza nos empreendimentos. Mas a avidez se justifica pelo alto valor agregado à terra e incentivado pela atual legislação municipal.
Não é a natureza como argumento de venda, mas sim a natureza como consciência de preservação do meio ambiente que pode estar fixada nas diretrizes do Novo Plano Diretor em estudo pela Prefeitura do Município de Cotia. A população deve entender que é o Plano Diretor quem determina os rumos da sua cidade e que a sua omissão pode levar o Município em direção diferente do lugar que onde as pessoas planejaram a sua vida.
Mario Savioli, mestre em arquitetura e urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie